"... No domingo passado, o Evangelho permitiu-nos ver o combate de Jesus no «Deserto da tentação», tentação inevitável ao homem que busca a Deus.
Hoje o Evangelho permite-nos assistir à Transfiguração de Jesus, revelação da Sua identidade gloriosa de Filho. E isto passa-se na montanha, local tradicional das teofanias, das manifestações divinas na Bíblia. Enquanto rezava, o aspecto do Seu rosto alterou-se... a referência à oração de Jesus é própria de Lucas, não a encontramos nem em Mateus nem em Marcos: ela diz respeito a um tema que é caro a Lucas.
A face de Jesus, familiar aos apóstolos, transformou-se, transfigurou-se, diante de Pedro Tiago e João, e não apenas a Sua face, visto que também se refere que a Sua veste ficou de uma brancura refulgente.
Os discípulos veem com os seus próprios olhos uma transformação radical do aspeto exterior de Jesus! O rosto que irradia luz e as vestes resplandecentes revelam Jesus revestido de glória celeste! o combate de Jesus no deserto ocorreu sem testemunhas humanas, a Sua Transfigurou-o no monte acontece diante de várias, o que lhe confere credibilidade, segundo tradição bíblica.
De facto, há aqui dois tipos de testemunhas: os três discípulos de Jesus e duas grandes figuras do
Antigo Testamento, Moisés e Elias. Estes estão presentes na Transfiguração para significar que
Jesus cumpria as Escrituras, visto que, segundo a tradição, estas personagens foram elevadas ao
Céu e, também segundo ela, simbolizam a Lei e os Profetas, quer dizer, a Palavra de Deus da primeira Aliança, habitualmente chamada Antigo Testamento.
Dois pormenores, também tradicionais nas Escrituras, são mencionados no Evangelho: a misteriosa sonolência e a densa obscuridade, a nuvem que provoca pavor. Esta nuvem é o sinal, segundo o Êxodo, da misteriosa presença de Deus que Se revela e Se vela ao mesmo tempo; o que não pode senão provocar temor sagrado àqueles a quem ela cobre.
A Transfiguração vem anunciar o cumprimento das Escrituras de uma forma inaudita, inesperada, surpreendente e até mesmo incompreensível para os três discípulos de Jesus. Os três discípulos convocados por Jesus comtemplam-n’O antecipadamente revestido da glória da Páscoa. Jesus deu-lhes a possibilidade de se tornarem testemunhas deste momento para os ajudar a atravessar a prova da Paixão.
É muito legítimo perguntarmo-nos, no início da segunda semana da Quaresma: Que sentido tem para nós hoje a narrativa da Transfiguração? Um fortalecimento da fé? Uma exortação a perseverar no esforço de
conversão, oração, jejum e caridade, traduzida em obras? Esta leitura pode-nos ajudar nesta Quaresma?
Um fortalecimento da fé no mistério do Deus e Homem que é Jesus, este Ser singular, único, que realmente morreu na Cruz e que também realmente ressuscitou dos mortos e subiu ao céu? O silêncio que se menciona no fim deste Evangelho deve também ser assumido por nós, considerando que é necessário, pela fé, entrarmos verdadeiramente nesta revelação. ... "
Fonte : Ordem dos Carmelitas Descalços