" ... O exemplo de Jesus

Concentremo-nos no segundo relato em que podemos ver um problema grave. A mulher sofre perda de sangue: uma doença que a obriga a viver num estado de impureza ritual e de discriminação. As leis religiosas judaicas obrigam-na a evitar o contacto com Jesus. Porém, é precisamente esse contacto que a poderá curar.
A
cura ocorre quando aquela mulher, educada em categorias religiosas que a
condenam à discriminação, consegue libertar-se da lei para confiar em
Jesus. Naquele profeta, enviado por Deus, há uma força capaz de a
salvar. Ela «notou que o seu corpo estava curado»; Jesus «notou a força
salvadora que saiu dele».
Este
episódio, aparentemente insignificante, é mais um expoente do que se
recolhe de forma constante no Evangelho: a ação salvífica de Jesus está
sempre empenhada em libertar a mulher da exclusão social, da opressão
dos homens na família patriarcal e da dominação religiosa no seio do
povo de Deus.
Seria
anacrónico apresentar Jesus como um feminista dos nossos dias,
comprometido com a luta pela igualdade de direitos entre mulheres e
homens. A sua mensagem é mais radical: a superioridade dos homens e a
submissão das mulheres não vêm de Deus. É por isso que entre os seus
seguidores tem de desaparecer.
A
relação entre homens e mulheres continua doente, inclusive dentro da
Igreja. As mulheres não conseguem perceber de forma transparente «a
força salvadora» que vem de Jesus. É um dos nossos grandes pecados. O
caminho para a cura é claro: suprimir as leis, costumes, estruturas e
práticas que geram discriminação contra as mulheres, para fazer da
Igreja um espaço sem dominação masculina. ... "
Autor : José António Pagola, Grupos de Jesus "